Objetivos
Bárbaros: do território imperial à formação dos reinos bárbaros
Reconhecer o conceito de bárbaro e seu impacto na transição do território imperial ocidental para a formação dos reinos romano-bárbaros.
Reinos bárbaros na Hispânia e Itália
Categorizar os aspectos formativos dos reinos bárbaros na Hispânia e Itália.
Reino franco: entre merovíngios e carolíngios
Identificar eventos característicos do reino franco e seu impacto no território imperial do Ocidente.
O conhecimento acerca dos reinos bárbaros e da transição da Antiguidade para a Idade Média é um fenômeno importante para o entendimento do processo histórico do Ocidente e um debate central para o historiador e professor de História.
O conceito de “bárbaro” só pode ser entendido por sua relação de diferença e contato (alteridade) com outras categorias e fenômenos históricos. Portanto, as populações “bárbaras”, bem como o que se convencionou designar como reinos bárbaros, devem ser compreendidas na sua relação com o Império Romano, a população romana e a noção de romanidade.
À luz dessa relação de alteridade, vamos compreender mais profundamente a categoria “bárbaro” e sua relação com a transição da Antiguidade para a Primeira Idade Média. Os reinos bárbaros, afinal, foram múltiplos.
Neste conteúdo, conceituaremos “bárbaro” e conheceremos um panorama de algumas dessas organizações políticas. Em seguida, exploraremos os reinos que se estabeleceram na Península Ibérica (suevo e visigodo) e na Península Itálica (ostrogodo e lombardo). Por fim, vamos debater e conhecer o reino franco, o mais duradouro dos reinos bárbaros, analisando seu impacto no território que antes fazia parte do Império Romano do Ocidente.
Antes de mergulharmos nos debates, vamos relembrar aspectos da transição da Antiguidade para o Medievo. Frente a frente, Rodrigo Rainha e Nathalia Serenado debatem a questão.
Quem são os bárbaros?
O termo “bárbaro” surgiu na Grécia por volta do século VI a.C. e dizia respeito a todas as populações não gregas. A principal marca de diferenciação entre gregos e aqueles que a população grega considerava “bárbaros” era a língua grega. Posteriormente, durante as guerras médicas, esse termo assumiu uma conotação ligada à noção de não civilidade e uma marca negativa acentuada.
Já os romanos, no período da república, durante os séculos III e II a.C., adotou essa noção grega, bem como seu sentido negativo em relação à civilização. Por outro lado, diferentemente dos gregos, os autores romanos acreditavam que os bárbaros poderiam ser integrados à romanidade.
De acordo com Patrick Geary (2005, p. 91):
A principal máquina de romanização era o exército.
Nesse sentido, é bastante significativo que, em relação ao Império Romano, a principal atividade integrativa entre os bárbaros tenha sido a militar. Esse processo de romanização influenciado pelo exército se dava pela movimentação de populações através do território imperial por meio do alistamento militar. Portanto, era comum que indivíduos alistados, por exemplo, na África ou na Ásia Menor fossem enviados em legiões em direção às Ilhas Britânicas ou à Hispânia.
Essa movimentação criava uma identidade vinculada ao exército e ao poder imperial, forjando novas relações e movimentando as características da população.
Édito de Caracala.
Entretanto, essa identidade romana específica se transformou no século III com a ampliação da cidadania decretada pelo Édito de Caracala (212), quando decretou que todos os habitantes livres do Império Romano, onde quer que vivessem, eram cidadãos romanos. Isso fez com que praticamente toda população tivesse acesso às legiões, que começaram a recrutar nos distritos onde se estabeleciam.
Outro aspecto foi que, no fim do século II a.C., passou a ser permitido que os soldados em atividade se casassem. As esposas oriundas das populações locais aceleraram o processo de formação de vínculos entre as legiões e as comunidades regionais.
Nessa relação entre romanos e bárbaros, há outra identidade que deve ser levada em consideração: as identidades regionais. A crise do século III colocou em órbita as identidades provinciais. Portanto, no contexto de enfraquecimento do governo imperial central, as identidades locais ganhavam força e eram expressas com termos provenientes das subdivisões civis e do vocabulário étnico pré-romano. Tais aspectos começaram a dominar a retórica dos discursos provincianos.
As províncias romanas no ano 117.
Era comum não só ver pessoas expressarem sua civilidade romana em cargos que remetiam ao governo imperial central, mas também fazer referências à sua origem pré-romana. Os exemplos mais numerosos podiam ser vistos entre os galo-romanos e são sinalizados por meio de insurgências em relação ao poder imperial, como no caso do Império Gálico.
É nessa realidade de multiplicidade identitária que os povos “bárbaros” se inserem no contexto imperial. Nesse sentido, o entendimento romano acerca dos bárbaros é dependente dos termos populus, gens, natio ou tribus.
Entre esses termos, é importante notar uma questão. Por meio da alteridade, era apenas o populus romanus que possuía uma história, um grupo de indivíduos que vivia de acordo com uma única lei.
Nesse sentido, o populus romanus tinha uma característica constitucional.
Populus romanus.
Por outro lado, os outros populus ou gens bárbaros seguiam, de acordo com a concepção romana, a lei natural. Além disso, seus sistemas sociais eram baseados em critérios objetivos e imutáveis. Sendo assim, esses populus só passavam a fazer parte da história quando entravam na órbita romana.
Contrariando a expectativa romana, os povos bárbaros eram unidades políticas de caráter constitucional que uniam grupos de origens culturais, linguísticas e geográficas diversas sob a liderança dos clãs de guerreiros nobres.
Entretanto, segundo Geary:
Quando surgiram na órbita do Império, suas estruturas econômicas, sociais e políticas foram moldadas pela civilização romana, assim como a percepção que tinham de si mesmos, foi fortemente influenciada pelos sistemas de classificação de seus vizinhos imperialistas, cujos costumes procuravam assimilar.
(GEARY, 2005, p. 76).No entanto, vamos voltar um pouco na história para compreender a importância da Germânia, de Tácito, para a construção da noção de bárbaros germanos. Nessa obra, o autor busca descrever detalhadamente os costumes desses povos. O livro manifesta uma simpatia pelo populus germano.
Não é como inimigo que ele descreve esses povos. Como aspecto social, Tácito aponta que os germanos desconheciam o Estado e a cidade, centrando sua vida na tribo e no clã. Por outro lado, o caráter político é descrito pelo traço militar, que seria típico da tradição germânica.
Do ponto de vista cultural, esse povo estava interligado ao ser caráter guerreiro (SONSOLES GUERRAS, 1987, p. 14-23).
Entretanto, a descrição feita pela obra de Tácito, do século I, dizia respeito muito mais a uma crítica do autor à sociedade romana feita por meio de germanos idealizados.
As migrações bárbaras para o território imperial
Ainda hoje, poucas são as conclusões e os consensos sobre as populações bárbaras no período anterior ao contato com o Império Romano, mesmo porque esse contato sempre foi ativo nas regiões de fronteira. Entretanto, o contato com os romanos foi decisivo na transformação desses povos.
Exemplo
Os povos germânicos e os da Escandinávia iniciaram suas primeiras tentativas de centralização como resultado da influência do Império Romano (SILVA, 2019, p. 20).
Outro aspecto dessa transformação foi a utilização de títulos romanos, como, por exemplo, Rex e Flavio, por líderes político-militares bárbaros dentro e fora do território imperial.
Esse processo de centralização em relação ao poder imperial também pode ser verificado nas fronteiras, já que é possível encontrar o surgimento de alianças de tribos bárbaras nas regiões do Limes germânico para se defenderem dos ataques romanos, dando origem a novos grupos, como é o caso dos francos (SILVA, 2019, p. 20-21).
Limes germânico reconstruído próximo a Saalburg, Alemanha.
É importante estar atento à heterogeneidade da composição desses grupos populacionais, os quais majoritariamente reuniam-se no entorno de uma elite militar que negociava com o Estado Imperial.
Como conformação social e política, os grupos bárbaros eram compostos por pequenas comunidades de fazendeiros e pastores que viviam nas aldeias às margens de rios, no litoral e em clareiras, desde os mares do Norte e do Báltico até o Mar Negro.
Vilarejo germânico.
Esses grupos de homens e mulheres livres estavam organizados em núcleos familiares comandados pelos maridos e pais. Seu status social estava relacionado diretamente ao aspecto econômico, enquanto a riqueza era medida pelo tamanho do rebanho de cada família e pela destreza militar.
Os núcleos familiares eram integrados a um grupo mais amplo chamado de sipe ou clã. Já o núcleo familiar era a unidade primária da sociedade bárbara. As gentes (ou povos), por sua vez, eram formadas por uma combinação de tradições religiosas, legais e políticas que proporcionavam um dorme (sentimento de unidade) instável.
Recriação de como os povos germânicos se vestiam.
Um aspecto importante desses grupos sociais era o compartilhamento de um mito de origem, que era a base de suas tradições, de seu sistema legal e, em especial, de seus líderes. Cabe notar que esses mitos ancestrais eram moldados para obter a legitimidade do status de determinado grupo, e novos líderes podiam se aproveitar desses mitos para se legitimar suas mudanças de posições de poder.
Os especialistas têm chamado esses complexos de crenças de “núcleos de tradição” que perpassavam as famílias reais – Traditionskern (GEARY, 2005, p. 93).
Hunos em batalha.
A relativa estabilidade nas fronteiras do Império Romano e dos povos bárbaros foi abalada tanto por influências externas como por aspectos internos. Como caráter externo, podemos destacar o impacto da confederação dos hunos na migração dos povos bárbaros para o território imperial. Em uma geração, esses guerreiros das estepes destruíram as confederações bárbaras que se encontravam na fronteira do Império.
Um dos principais impactos foi na confederação gótica, que destituiu a autoridade gótica no Danúbio. Como opção para esse esfacelamento institucional, os grupos góticos possuíam duas opções: se unir aos hunos ou requisitar ao imperador romano sua entrada e estabelecimento no território imperial. Do ponto de vista interno, a entrada dos povos bárbaros no território imperial se deu majoritariamente por conta das necessidades de alistamento militar.
É comum que o pensamento do senso comum promova uma ligação direta entre o fim do Império Romano do Ocidente e as “invasões bárbaras”. Mais que um olhar popular, esse período recebe um sentido de causa e consequência em uma perspectiva histórica.
Esse olhar é baseado em diversos autores, como Edward Gibbon (1737-1794) e Henri Pirenne (1862-1935). Entretanto, pesquisas mais atualizadas apontam para problemas internos existentes no mundo imperial (Frighetto, 2012, p. 135), como:
A pressão política e militar exercida pelas populações bárbaras que já estavam instaladas no interior do Império.
O desaparecimento da figura do imperador romano ocidental e o total esvaziamento do poder e da autoridade imperial motivados pela força do regionalismo.
O estabelecimento e a readequação política e institucional promovida pelos reinos romano-bárbaros.
A incapacidade do poder imperial romano de se reformular em termos ideológicos.
Entendemos que a perda do domínio, por parte dos governos imperiais, das províncias que compreendem a região norte-africana, a Península Ibérica, a Gália e as Ilhas Britânicas significa o desfecho de um longo processo de falência política e militar, cujas causas decisivas incluem uma multiplicidade de elementos internos, como o gigantismo da administração, a vasta corrupção das instituições, a retração do comércio, o declínio das cidades e a reduzida vitalidade demográfica da população, bem como as ondas migratórias bárbaras (MASTROMARTINO, 2011, p. 68-69).
Sarcófago de “Grande Ludovisi” com cenas de batalha entre soldados romanos e bárbaros.
Além disso, o termo “invasões bárbaras” não é apropriado para referir a esse fenômeno migratório plural. A expressão “invasões” supõe a existência de um movimento coordenado.
Entretanto, não havia um centro a partir do qual as ondas bárbaras entravam no território imperial. Além disso, as formas de instalações desses povos variavam bastante, desde o uso de força até o estabelecimento de alianças com Roma (SILVA, 2019, p. 20-21).
Há dois conceitos centrais para se compreender a entrada e o estabelecimento dos grupos bárbaros no território imperial - em especial, em sua porção ocidental: deciticii e foedus.
Era a condição com que esses indivíduos ingressavam na órbita imperial, servindo como um status ou uma condição de vencidos e integrados ao Império. Ou seja, a condição de deciticii descrevia a piedade romana e a sobrevivência dos povos derrotados, que deveriam atuar em favor dos interesses imperiais.
Era o tratado que estabelecia as obrigações desses povos vencidos com o imperador. Ele obrigava os grupos bárbaros a respeitar as fronteiras do Império e fornecer tropas, gado e outros bens para o exército imperial. A relação principal era estabelecida com os líderes bárbaros, que se tornavam aliados de Roma e percebiam que, lutando pelo Império, podiam alcançar níveis de poder e influência. Dessa maneira, grupos favoráveis e contra Roma se desenvolviam no interior das confederações bárbara ao longo do Limes, mantendo um estado de tensão e desunião entre elas.
O regime dos foedus (ou federados) mudará os contornos geopolíticos do território romano ocidental. Esse fenômeno será a base para aquilo que conhecemos como reinos bárbaros.
Os reinos bárbaros e a nova organização política
O regime dos foedus serviu como base para o impulso inicial dos reinos bárbaros no contexto do que antes era conhecido como território imperial. Os líderes bárbaros se instalam nas províncias do Ocidente por meio da sua função de aliados militares, já que os foedus concediam o estabelecimento em um território, tendo em vista sua salvaguarda, a proteção das populações e a manutenção das instituições romanas.
Vália, rei dos visigodos entre os anos 415 e 418.
O caso mais famoso desse tipo de assentamento de povos bárbaros - e que criou um verdadeiro modelo para o fenômeno - foi o do foedus dos visigodos, em 418, entre Vália e o imperador Honório, que concedeu aos godos uma região para seu assentamento, situado na província da Aquitanica Secunda, e alguns distritos urbanos das províncias vizinhas Nouempopulania e Narbonensis Prima, onde estava Tolosa.
Esse assentamento serviu de base para a fundação do reino visigodo de Tolosa.
Como contexto geral, o processo de fragmentação da hegemonia romana ocorreu concomitantemente à instalação dos povos bárbaros nas províncias ocidentais do Império. Inicialmente ligados aos centros de governo imperiais por meio da relação de foederatio, esses reinos agiam ideologicamente como uma espécie de prolongamento ideal da antiga ordem romana.
Do ponto de vista geográfico, o desgaste da autoridade romana facilitou a formação desses principados bárbaros que dividiram as províncias do Império:
Reinos bárbaros durantes os séculos V e VI.
O aproveitamento das instituições romanas por parte dos reinos bárbaros não é consenso na historiografia, variando conforme a corrente historiográfica do autor, bem como o reino analisado.
Mastromartino, que avalia mais o impacto dos povos bárbaros na Península Itálica, considera que o estabelecimento dos bárbaros aconteceu no interior dos compartimentos circunscricionais romanos, de modo que a maior parte dos serviços e órgãos do sistema imperial foi incorporada nos novos reinos (MASTROMARTINO, 2011, p. 70). Outros autores chamam atenção para os elementos de ruptura sistêmica entre o poder imperial e a consolidação dos reinos bárbaros.
Em nossa concepção, a base política institucional do Império Romano foi crucial para a sistematização desses reinos. Além desse aspecto, precisamos chamar a atenção para o impacto da religião cristã como base ideológica e social de tais sistemas de governo.
No momento de inserção no território romano ocidental, é comum notar a conversão ou prática desses grupos bárbaros para o cristianismo ariano. O arianismo funcionou, em geral, como elemento diferenciador entre a população bárbara e a autóctone-romana, a qual majoritariamente professava a fé no cristianismo de base nicena (relativa ao Primeiro Concílio de Niceia).
Primeiro Concílio de Niceia. Afresco na Capela Sistina, Vaticano.
Mas o que a conversão ao cristianismo significava para as populações bárbaras?
Resposta
A incorporação de uma concepção de história, assim como as práticas de inumação, a construção de igrejas e, em especial, a aliança com grupos autóctones, já que a maioria do clero era composta por membros da aristocracia senatorial romana (SILVA, 2019, p. 19).
Ao longo do desenvolvimento desses reinos, devido à articulação com as elites regionais e senatoriais e à relação com as camadas mais altas da hierarquia eclesiástica, isto é, os bispos, era comum um processo de conversão ao cristianismo niceno por parte desses reis bárbaros. Essas conversões foram responsáveis por mudanças sistemáticas nos reinos e na articulação entre os grupos assentados no território sob domínio bárbaro.
Os francos. Séculos X e VI.
Outra mudança importante ocorrida ao longo dos séculos foi a seguinte: se inicialmente as identidades bárbaras possuíam um significado militar, elas, entre os séculos VI e VIII, passaram a designar mais do que isso, ganhando um contorno geopolítico. Por exemplo, o título de rei dos francos só começou a ser atribuído a Clóvis após a sua morte. Além disso, o reino dos francos passou a ser considerado como todo o território sob domínio de uma família, a qual, somente a partir da segunda metade do século VI, passou a se intitular franca, mas que dominava o latim, cunhava moedas romanas e, sobretudo, governava pessoas de origens diversas (SILVA, 2019, p. 30).
Do ponto de visto da narração da história, as identidades bárbaras ganharam como aporte as histórias dos povos bárbaros. Redigidas a partir do século VII, elas descrevem a origem desses povos, como é o caso da obra seminal de Jordanes, De origine actibusque getarum, que narra a genealogia mítica dos godos. Esse aspecto demonstra que as elites bárbaras tinham como objetivo reforçar a legitimidade de tais reinos por meio da fabricação de mitos de origem.
Outro aspecto central para a efetivação dos reinos bárbaros foi a sistematização de uma legislação específica, como é o caso das Lex Salica e Lex Visigothorum. De acordo com Silva (2019, p. 35), as leis bárbaras, mesmo que diversas, possuíam duas características em comum:
Foram redigidas em latim nos territórios que correspondiam ao antigo Império Romano.
Os textos que as compõem foram reunidos segundo critérios semelhantes aos adotados no Código Teodosiano.
As leis bárbaras foram uma adaptação do Direito Romano às demandas dos novos reinos bárbaros do Ocidente. É comum que a historiografia chame a atenção para os atos de violência interpessoal, o que acaba por destacar o caráter violento desses grupos. Entretanto, além de essas leis serem instrumentos de combate à violência, elas eram uma ferramenta para a afirmação e a fabricação de uma identidade dos povos bárbaros (SILVA, 2019, p. 35-36).
Rodrigo Rainha bate um papo sobre os bárbaros. Vamos lá!
Reino suevo e o modelo de realeza cristã
A inserção dos suevos no território imperial e seu posterior assentamento na Península Ibérica aconteceram a partir da retirada legionária da região do Reno para proteger e guarnecer a Itália contra novas incursões bárbaras.
Nesse sentido, independentemente dos acordos estabelecidos entre o poder imperial e algumas elites bárbaras na forma de foedus, outros grupos ingressaram e formaram novas reinos no território. Esse é o caso dos suevos, que entraram pela Gália em 406, junto a vândalos e alanos, sem grande resistência, trazendo consigo as demandas internas e os levantes aristocráticos, como o de Constantino III.
Migração dos suevos.
Obras como as de Hidácio e Paulo Orósio indicam que os suevos entraram na Península Hispânica já em 409. Tendo vagado pela península inicialmente sem fixação, eles posteriormente se organizaram no território a partir da correlação de forças com outros grupos bárbaros.
Os grupos mais fortes teriam ficado com as regiões mais ricas e amplas. Dessa forma, os suevos passaram a exercer poder e ocupar a Gallaecia, no noroeste da Hispânia, área menos rica da península (SILVA, 2008, p. 29-31).
Expansão dos suevos até a província romana Baetica.
A partir de 411, suevos, vândalos e alanos já haviam promovido uma divisão estável dos núcleos de seus assentamentos. Após esse período (e com a influência dos visigodos, federados romanos, na região), o Império promoveu a dizimação de alanos e visigodos silingos. Depois de tal episódio, houve a oportunidade de expansão dos suevos até a Bética.
De acordo com Silva (2008, p. 31), um reino, mesmo que incipiente, começou a se formar desde o início do assentamento na Gallaecia, o que conferia independência política aos suevos. O domínio suevo na região se caracterizou no primeiro momento pelo pouco interesse do grupo nas áreas urbanas, que continuaram sendo um espaço de poder dos grupos aristocráticos hispano-romanos pelo reduzido número da população sueva em relação aos locais e pela funcionalidade do sistema fiscal romano.
A monarquia sueva tinha como fundamento a valorização do elemento militar. Além disso, o conceito de monarquia já existia entre os suevos antes de sua entrada no território imperial.
Cabe notar que, mesmo tendo sua origem na Panônia (atual Hungria), a população sueva já compusera outras confederações bárbaras nos Limes romanos.
As primeiras referências documentais aos reis suevos apontam para o reconhecimento de sua liderança militar pelos guerreiros durante e após sua chegada à Hispânia (SILVA, 2008, p. 37). Outro aspecto da monarquia diz respeito ao regime sucessório entre os reis suevos, que tem como critério a hereditariedade.
Hemérico, rei dos suevos entre 406 a 438.
Como já apontamos, a conversão ao cristianismo niceno teve um papel central na consolidação desses governos e na assimilação dos grupos bárbaros e da população autóctone. Entre os suevos, isso não foi diferente.
Rei Ariamiro com os bispos Lucretius, Andreas e Marinho do Dume durante o primeiro Concílio de Braga.
A conjuntura política do reino a noroeste da Península Ibérica no século VI é produto da associação realizada entre a monarquia sueva e a igreja galaica. A política religiosa empregada pelo seu episcopado construiu um empenho de legitimação realizada com a dupla atuação das instituições a partir da conversão da coroa sueva ao cristianismo niceno.
Essa conformação política e a relação próxima entre Igreja e monarquia seriam mantidas até o fim do reino suevo. Em 585, Leovigildo, rei visigodo, promoveu uma campanha militar contra o reino suevo da Gallaecia, motivado pelos problemas sucessórios ocasionados pela morte do rei Miro em 583. A partir desse momento, o reino suevo deixa de existir, passando Gallaecia à condição de província hispano-visigoda (FRIGHETTO, 2012, p. 170).
Saiba mais
Por se tratar das migrações bárbaras até o Império Carolíngio, não podemos explorar todos os reinos bárbaros. Entretanto, faremos um pequeno adendo sobre os vândalos que passaram pela Hispânia e estabeleceram um reino no norte da África em 439, após a conquista de Cartago. Apesar de esse reino não ser fruto de um foedus com a autoridade imperial, é possível verificar uma relação com a elite autóctone-romana e a manutenção da administração imperial. Por outro lado, a posição dos vândalos sobre o cristianismo de corrente ariana não possibilitou uma assimilação à população local, elemento que foi significativo para a instabilidade do reino e para sua derrota sob a campanha de Justiniano em 533 (SILVA, 2019, p. 27).
Mas tem gente que estuda esses povos? Vamos entender um pouco mais sobre esse tópico conversando com dois medievalistas que, em suas pesquisas, discutem o reino visigodo. Para isso, assistiremos ao debate com Nathalia Serenado e Rodrigo Rainha.
Reino visigodo e a identificação entre monarquia e Igreja
Os godos são uma força importante nas fronteiras e no território imperial durante o fim da Antiguidade e o início da Idade Média. Marcando presença no exército romano ou como grupos federados, os godos são uma força política desse período.
Reino dos visigodos circa 500.
O foedus dos visigodos em 418 criou um verdadeiro modelo para o fenômeno de assentamento e organização política entre o Império e os povos bárbaros. Além disso, esse assentamento serviu de base para a fundação do reino visigodo de Tolosa. O modelo possibilitou que líderes bárbaros fossem tanto reis em relação à população bárbara como representantes do Império no tocante à população autóctone-romana. Ou seja, o modelo que se construiu a partir do caso visigodo é de uma dupla legitimação e atuação.
Entretanto, vamos recuar um pouco nesse processo para compreender a chegada dos visigodos à posição de federados e posteriormente à formação do reino bárbaro. A confederação gótica vivia mais a leste da Europa com sua monarquia militar, que se fragmentou sob a pressão imperial.
Posteriormente, os godos de tais regiões mais a leste reconheceram a autoridade de uma nova família real. Já entre os grupos góticos a oeste, os inúmeros reiks (líderes de guerra) compartilhavam e disputavam o poder oligárquico.
Império Romano em 337 d.C.
Em 332, Constantino estabeleceu um tratado com um líder desses grupos, Aorico, filho de Ariarico, que havia sido criado em Constantinopla. Sob o comando de Ariarico, Aorico e Atanarico, esses godos do oeste se tornaram cada vez mais integrados ao sistema imperial, fornecendo tropas auxiliares para as regiões do leste do Império (GEARY, 2005, p. 106-107).
Com o impacto dos hunos na população goda, aqueles que escaparam do ataque de 375 tiveram duas opções: anexação pelos hunos ou entrada em território imperial. Uma minoria abandonou o grupo de Atanarico e fugiu com Fritigerno, cruzando o Danúbio. Isso provocou uma mudança de identidades desse grupo: seus membros tornaram-se os tervíngios.
Atanarico e o imperador romano Valente sobre o Rio Danúbio. Eduard Bendemann, 1860.
Entrando no Império como derrotados, eles foram recebidos sob custódia de oficiais romanos. Entretanto, a realidade é que esses godos eram numerosos e criaram dificuldades para a administração romana.
Além disso, eles não haviam se rendido a Roma. A situação pouco comum desse grupo provocou uma resistência armada dos godos quando os maus tratos e a fome os assolaram. O resultado foi uma série de vitórias deles contra os romanos.
Visigodos comemorando vitória sobre os romanos.
Em 378, as vitórias góticas culminaram na derrota do exército imperial e na morte do imperador Valente, em Adrianópolis. Quatro anos depois, um tratado foi assinado; com isso, os góticos passaram a ser reconhecidos como federados. Os romanos permitiram que eles se estabelecessem entre o Danúbio e as montanhas balcânicas com seus próprios governantes.
Bispo Úlfilas traduziu a Bíblia do grego para a língua gótica.
O sucesso dos tervíngios e de seus aliados resultou na transformação de um grupo heterogêneo de refugiados no populus dos visigodos. Um dos elementos da identidade dos visigodos nesse período foi a fé ariana, que os distanciava da maioria da população imperial.
Após uma geração, os visigodos não só se identificavam com essa nova identidade como também compartilhavam os aspectos da identidade do Império Romano, especialmente por meio do serviço militar. O ano de 400 é palco de novos problemas militares na parte ocidental do mundo imperial romano.
É nesse contexto que o rei dos visigodos aproveita a instabilidade para exigir dos romanos um novo cargo militar e o pagamento dos serviços militares. A negativa do imperador Honório inicia a campanha militar de Alarico contra Roma, culminando no saque da capital romana de 410.
O saque de Roma. Joseph-Noël Sylvestre, 1890.
Nesse processo, Alarico, rei dos visigodos, passou a dispor de uma autoridade permanente entre o seu povo, algo que seria uma característica dos reis visigodos. Ela, aliás, concorria com a própria autoridade imperial romana, já que o exercício e a ampliação do poder régio faziam-se nos mesmos espaços territoriais teoricamente dominados pelo poder imperial.
Outro aspecto do poder régio visigodo foi a transmissão do poder entre os grupos aristocráticos por meio da eleição e aclamação entre os visigodos. A eleição de um novo rei dependia da vinculação do soberano sucessor com os grupos aristocráticos que lhe davam apoio militar.
Assentamento original dos visigodos na Gália Aquitanica.
No contexto ibérico, os visigodos atacaram a região entre 416 e 418. Já contando com o novo tratado com a autoridade imperial, eles centravam-se nas províncias mais ricas e romanizadas. A vitória nessa empreitada militar na Hispânia fez com que Vália, rei visigodo à época, fosse convocado a comparecer na Gália, onde se estipulou o famoso foedus de 418, que concedeu aos godos uma região para seu assentamento.
O projeto dos reis visigodos - em especial, de Alarico - concretizava-se, pois esse foedus legitimava juridicamente a ocupação de áreas da Gália, possibilitando as bases da construção do reino bárbaro de Tolosa, que era, afinal, um reino bárbaro dentro do mundo romano. Na construção do reino visigodo de Tolosa, a realeza buscou consolidar-se como uma instituição dotada de poderes superiores sobre o restante da sociedade política e aristocrática visigoda e galo-romana (FRIGHETTO, 2012, p. 144).
A presença militar dos visigodos na Hispânia romana já ocorria desde 429, em especial nas regiões mais romanizadas e próximas do Mediterrâneo, o que estendeu a hegemonia visigoda para as regiões ibéricas.
Do ponto de vista da relação entre o reino visigodo e a autoridade imperial, o governo de Eurico é bastante importante para a consolidação da autoridade visigoda. Em 472, ocorreu a consolidação do reino deles em termos espaciais e institucionais, quando o foedus entre visigodos e romanos deixou de existir. Rei dos visigodos, Eurico deixava de reconhecer a supremacia romana nos territórios ocidentais.
O reino visigodo de Tolosa, na Gália, manteve-se com certo equilíbrio até a inserção de outro grupo bárbaro na região, os francos. Mantendo autoridade e maior ocupação na Belgica Secunda, os francos iniciaram uma expansão do norte para o restante da Gália.
Vinculados à autoridade imperial em alguma medida, eles exerceram pressão sob o reino visigodo que se estabelecia na região da Aquitânia. Esse processo culminou na Batalha de Vouillé, em 507, quando os godos, vencidos pelos francos, voltaram-se para a Hispânia, onde estabeleceram o reino visigodo de Toledo.
Batalha de Vouillé, em 507.
A ação militar visigoda na Aquitânia não findou na vitória franca de 507; entretanto, o fracasso visigodo provocou, a partir de meados do século VI, uma mudança nos rumos da política régia visigoda. A partir do reinado de Ágila (549-555), a ação régia visigoda se voltou para a consolidação da hegemonia dos visigodos sobre a Hispânia.
Leovigildo, por Juan de Barroeta, 1854.
Selecionaremos o reinado de Leovigildo como exemplo dessa política em relação à Hispânia.
Seu reinado foi marcado por confrontações militares e vitórias que ampliaram as áreas de domínio visigodo e estabeleceram uma hegemonia sobre uma grande parcela do território da Hispânia.
Em 570, sua atenção se voltou aos territórios bizantinos na região, e a ação resultou retomada de áreas próximo a Málaga e Medina Sidônia (e, dois anos depois, a Córdoba). Essas vitórias no sul da Hispânia reforçaram o poder de Leovigildo perante os visigodos, assim como em certos círculos aristocráticos hispano-romanos (FRIGHETTO, 2012, p. 168).
Se o reinado de Leovigildo consolidou a hegemonia da monarquia visigoda em relação ao território e às relações de poder das elites bárbaras e hispano-romanas, o reinado de seu sucessor marca um novo momento no reino visigodo. A conversão ao cristianismo niceno por Recaredo em 589 e a confirmação de uma nova política episcopal e monárquica no III Concílio de Toledo, no mesmo ano, lançaram as bases para um novo processo de assimilação e organização institucional do reino.
Conversão do rei Recaredo ao catolicismo. Antonio Muñoz Degrain, 1888.
Tendo como base a elite episcopal da região, vemos uma forte relação entre o poder régio e o político-religioso. É nesse contexto que o cristianismo e a Igreja serviram de braço moral da sociedade visigoda, bem como de legitimadores das políticas régias. Essa relação íntima confeccionou para o reino visigodo de Toledo uma verdadeira conformação política-religiosa na Hispânia, que perdurou até o fim do reino visigodo com a chegada dos muçulmanos à Península Ibérica.
“A queda de Roma” e a organização política da Itália
A ocupação e a organização política da Península Itálica são um tópico específico do final da Antiguidade e do início da Idade Média.
Como é comum pensar, o território que antes era centro do poder do Império Romano (e, posteriormente, Império Romano do Ocidente) foi foco de múltiplos grupos interessados em sua organização, desde grupos bárbaros até o Império Romano do Oriente. O que vamos verificar é que a Península Itálica abrigou uma multiplicidade de interesses e relações de poder.
Antes da análise do reino dos ostrogodos, porém, é importante perguntar sobre o fim do Império Romano do Ocidente. A deposição de Rômulo Augusto por Odoacro, rei dos hérulos, em 476, é o marco cronológico que se convenciona usar na historiografia tradicional.
Entretanto, fontes da época deram pouca importância para tal acontecimento na comparação com outros eventos do fim da Antiguidade, como o Saque de Roma de 410, que gerou fortes debates sobre o enfraquecimento do Império, ou mesmo a noção de fim do mundo.
Rômulo Augusto abdica da coroa em frente a Odoacro.
Alguns aspectos são influentes dessa falta de importância que o evento recebeu, como:
O enfraquecido poder imperial, o qual, no século V, abrangia sob seu domínio apenas a Itália.
Nada indica que houve uma conquista bárbara da antiga capital, Roma.
A falta de poder do jovem Rômulo entre a população romana e a aristocracia.
Rômulo Augusto pertencia a uma família aristocrática que vinha da Germânia. Era filho de Orestes, militar romano que havia servido como secretário de Átila, rei dos hunos. Orestes estava à frente do exército imperial na Itália quando houve a investida de Odoacro.
Moeda cunhada por Odoacro contém o nome de Zenão, imperador bizantino ao qual Odoacro estava formalmente subordinado.
É importante notar que, após matar Orestes e depor e exilar Rômulo, Odoacro não dispôs para si os símbolos imperiais e enviou as insígnias para Constantinopla na corte do imperador Zenon. Por outro lado, seguindo o modelo implementado pelo foedus visigodo, ele passou a usar título romano de patrício e a cunhar moedas romanas como representante do poder imperial na Itália e rei de populações bárbaras (SILVA, 2019, p. 23-24).
Reino dos ostrogodos: de Teodorico à renovação de Justiniano
Nesse contexto, o reino dos Ostrogodos é produzido. Como resultado da ação militar do imperador Zenon, Teodorico Amalo entra no território itálico buscando expulsar Odoacro.
Em 493, Teodorico assumiu o controle da Itália, em teoria, em nome do imperador romano do Oriente. Contudo, é importante notar que ele governou com grande autonomia.
Gravura de Teodorio e Odoacro. Crônica de Nuremberg, 1493.
A intervenção de Teodorico Amalo na Itália provocou a movimentação de outros grupos bárbaros em apoio ou oposição à iniciativa ostrogoda, o que demonstra o importante papel político do rei dos ostrogodos sobre o Ocidente romano. É nesse contexto que Teodorico aparece como Flavio, título romano, e rei dos godos e dos itálicos. A aclamação do rei dos ostrogodos como rei da Itália foi feita pela nobreza bárbara e sem o consentimento imperial.
Teodorico atuou politicamente com base na ideologia de que era um autêntico restaurador do poder imperial na Itália, utilizando tanto o seu título régio entre os bárbaros quanto os títulos de patrício e Flavio, outorgados pela autoridade imperial de Constantinopla, entre os romanos e os itálicos.
A consolidação do reino ostrogodo na Itália foi impedida pelas dificuldades impostas pela autoridade imperial romana oriental em reconhecer o poder de Teodorico e pelas desconfianças por parte da sociedade política romana. Entretanto, Teodorico assumiu uma posição de expoente frente aos demais reinos bárbaros fixados em território imperial por meio de uma política matrimonial que colocou seus descendentes entre as principais famílias régias bárbaras.
Em meio a essa política, os ostrogodos, baseados em uma política patrimonial que incluiu a relação estreita com visigodos e francos, assumiram certa liderança e destaque no século VI.
Reino ostrogótico sob Teodorico, o Grande (474–526).
Um exemplo da condição frente aos outros reinos bárbaros é a tutela política e militar que Teodorico exerceu no reino visigodo durante a regência de sua filha e o reinado do neto, vinculado aos espaços da Narbonense e do nordeste hispânico. Durante seu reinado, ele estabeleceu a administração com base no poder da aristocracia romana e senatorial, só que com um regime de igualdade entre romanos e godos.
O mausoléu de Teodorico em Ravena.
Com a morte de Teodorico, as disputas entre a nobreza ostrogoda pela ascensão à condição régia, as divisões e os confrontos provocaram uma forte estabilidade na região, fato que proporcionou a campanha militar de Justiniano, que pôs fim ao reino dos ostrogodos.
A reorganização imperial promovida por Justiniano tem forte influência entre os reinos bárbaros do Oriente. Cabe notar que, desde o século IV, houve uma política de proteção dos territórios imperiais orientais em detrimento à organização e à militarização do Ocidente por parte do poder imperial.
Mosaico de Justiniano I.
Ou seja, é algo característico do fim da Antiguidade que o poder imperial desloque sua atenção para os territórios da porção oriental do Império.
Com o paulatino esvaziamento do poder imperial no Ocidente, podemos notar que as elites regionais e as bárbaras assumiram as posições de poder das provinciais ocidentais e, consequentemente, dos reinos bárbaros que sobrepujaram a organização romana.
É esse contexto de esvaziamento que Justiniano, imperador romano do Oriente, buscava combater com sua reforma. Seu projeto de renovação imperial envolveu muitas mudanças:
A revisão do código teodosiano de 438, com a pretensão de reformular o direito romano e a confecção de um novo código.
Um programa de edificações visando à melhora arquitetônica e urbanística de Constantinopla.
Uma ousada ação diplomática-militar que levou o Império Romano do Oriente a estabelecer uma paz perpétua com os persas sassânidas em 532.
Ao liberar as fronteiras orientais da pressão militar, Justiniano pôde se voltar para seu projeto de recuperar a hegemonia imperial no Mediterrâneo Ocidental.
A primeira grande empreitada militar externa do reinado de Justiniano foi a recuperação da África sob dominação romano-oriental, com os vândalos no poder. Já em 534, a campanha militar de Justiniano reestruturou administrativamente as áreas conquistadas na África e as organizou como dioceses, com um prefeito estabelecido em Cartago, ficando ela dividida em sete províncias e quatro circunscrições.
Império Bizantino em 550. A parte mais clara representa as conquistas de Justiniano.
Em um segundo momento, volta-se para a Itália Ostrogoda, que estava sendo disputada entre os grupos aristocráticos após a morte de Teodorico. A contenda entre grupos nobiliárquicos ostrogodos e as grandes famílias senatoriais romanas serviu de justificativa para as campanhas romano-orientais contra os ostrogodos.
Apesar das vitórias militares, o saldo do projeto restaurador de Justiniano foi negativo. Com volumosos custos econômicos e humanos da campanha militar na Itália, houve um enfraquecimento da posição imperial nos territórios ocidentais.
No contexto oriental, ocorreu um recomeço dos problemas nas fronteiras orientais com os persas sassânidas, além das ameaças de bárbaros lombardos e búlgaros nas áreas do Danúbio e de berberes na África. Esse contexto foi fundante para a impossibilidade de recuperação dos territórios mediterrânicos à autoridade de Constantinopla imperial.
Lombardos na Itália: uma história de descentralização
Os lombardos aparecem no contexto do território que antes era o Império Romano do Ocidente durante as campanhas militares de Justiniano. Os lombardos serviram nas forças romano-orientais como tropas auxiliares que combateram Tótila, rei dos ostrogodos. Conhecedores das defesas das forças do Império na Itália, a partir de 568, os lombardos, liderados por Alboíno, começaram a ingressar sistematicamente nesses territórios.
Gravura de Alboíno. Crônica de Nuremberg, 1493.
Primeiramente, eles estabeleceram-se nas áreas do norte da península, onde fundaram uma série de ducados dos quais se destacam Parma, Benevento e Spoleto. Essas populações bárbaras caracterizaram-se pela dispersão territorial e pela concentração de poderes nas mãos de duques regionais, o que pode explicar as dificuldades encontradas pelos lombardos de construir um reino com certa centralização, como o dos francos ou visigodos.
A conquista dos lombardos da Itália provoca uma subversão da ordem social e econômica da Itália tardo-antiga. A partir de 568, a instalação dos recém-chegados é acompanhada da subversão do sistema urbanístico. As relações com a Igreja, que, ao longo dos decênios, passam do confronto ao diálogo e ao reconhecimento recíproco, estremeceram-se novamente na segunda metade do século VIII (PICARIELLO, 2011, p. 102).
Nesse sentido, o reino dos lombardos é caracterizado pela dispersão e pelas mudanças em relação à Igreja.
No momento da conquista da Itália, os lombardos eram organizados militarmente em fare. O fare era a maneira como os grupos de guerreiros eram divididos em relação ao pertencimento a uma família com um antepassado comum.
Esses fare eram liderados pelos seus duques e se deslocavam de maneira autônoma, instalando-se gradualmente nos seus novos territórios. Essa característica e o poder dos duques foram mantidos durante todo domínio lombardo.
O Assassinato de Alboínio. Charles Landseer.
Depois da morte de Alboíno, os duques não conseguiram chegar a um consenso que aclamasse um sucessor e rei dos lombardos. Assim, o grupo ficou sem um rei entre 574 e 584, período que se convenciona chamar de “anarquia militar”.
Durante tal momento sem rei, os comandantes militares assumiram cidades fortificadas como seu centro de poder pessoal, agravando a relação com as populações itálico-romanas.
Segundo Picariello (2011, p. 103), do ponto de vista social, os lombardos se caracterizavam como um povo-exército que só reconhecia os direitos plenos aos homens capazes de pegar em armas, os arimanni, e que eram membros da assembleia da linhagem, o gairethinx. Nesse contexto, o poder era repartido pela assembleia dos arimanni, composta por duques e pelo rei.
Posteriormente, com a eleição de Autário, em 584, inicia-se um processo de restauração do poder régio, que se desenvolve sob uma base econômica suficiente para exercer tal poder à custa de bens cedidos pelos duques.
Picariello (2011, p. 103) continua:
O fortalecimento do poder régio movimenta a organização territorial dos moldes romanos para uma baseada em ducados. Esses ducados eram governados por um duque que não era somente o chefe de um fare, mas também um funcionário do rei, depositário de poderes públicos e acompanhado por funcionários menores, como sculdheis e gastald.
Sob o reinado de Astolfo, rei desde 749, é posta no centro dos interesses políticos a vontade de submeter ao poder lombardo os habitantes da Itália bizantina. O rei proclama um édito militar com a seguinte determinação: os homens livres do reino, lombardos e romanos, deveriam prestar o serviço militar independentemente de origem étnica e com base em sua riqueza.
Rei Astolfo, em doação ao Abade Anselmo para fundar a Abadia de Nonantola.
Do ponto de vista religioso, os reis lombardos, ao longo do século VII, alternaram-se entre a concepção nicena do cristianismo e o arianismo, o que alimentou uma forte oposição dos grupos nicenos ao poder régio.
Esse aspecto direciona os lombardos para uma relação complicada com o episcopado de Roma. Tendo em vista o édito de Astolfo, o Papa Estêvão II se opõe às tentativas régias de obter a jurisdição sob Roma e dos territórios dependentes da cidade.
O papa recorre ao rei dos francos, Pepino, o Breve, e pede que ele intervenha na Itália para recuperar os territórios do exarcado e os confiar à Igreja Romana. Em 754, o exército lombardo é vencido; dois anos depois, Astolfo é derrotado novamente pelos francos e forças papais. Em 774, os francos conquistam a capital do reino lombardo, Pavia, marcando o fim da independência do reino lombardo, que passa a estar unido, na pessoa do rei, ao reino franco.
Rodrigo Rainha faz a relação entre os reinos que vimos até aqui.
Rodrigo Rainha e Nathália Serenado discutem por qual motivo, entre diversos e complexos movimentos, os francos parecem ter mais notoriedade.
Os francos, assim como outros grupos bárbaros, ocupavam a região do Limes germânico na área do Rio Reno. Já em 259 havia notícias sobre eles no território imperial causando ataques destrutivos na Gália e no norte da Itália. Por outro lado, independentemente dos ataques, o fluxo comercial e cultural da região foi mais importante para a difusão de bens e valores romanos entre as elites francas.
De acordo com as primeiras referências documentais dos francos (e com base em suas lendas de origem), eles parecem ser uma confederação de povos há muito estabelecida na região do baixo Reno até o Rio Elba. A formação dessa confederação é heterogênea, já que havia grupos contra a autoridade imperial e outros associados ao Império Romano.
Origem dos francos.
O século V viu uma mudança profunda entre os francos, período no qual a família merovíngia chegou ao domínio. Essa família parece ter atribuído a si mesma uma origem sobrenatural que provavelmente tinha conotações pagãs. É possível também que ela tenha vindo do leste da confederação franca (WOOD, 1994, p. 38).
De maneira geral, os grupos bárbaros de origem franca habitavam as áreas limítrofes das províncias romanas da Germânia e Bélgica, na proximidade do Reno, desde a segunda metade do século III. Algumas documentações atestam a fixação de certas tribos francas nos territórios imperiais romanos como aliados e que seu contato com os romanos foi constante e fundamental (FRIGHETTO, 2012, p. 161).
Colônia agrippina durante o período romano.
Já no século V, os francos sálios e ripuários haviam se assentado na região da Colônia, pois a área tinha sido abandonada pelas legiões romanas, que haviam se deslocado para conter a ameaça visigoda sobre a Itália.
Com o desaparecimento da autoridade imperial no território do Ocidente e o contato sistemático da elite bárbara com a aristocracia galo-romana, os francos se estabeleceram no nordeste da Gália, Bélgica e Germânia.
No contexto arqueológico, os vestígios do sepultamento de Childerico I, pai de Clóvis, são um ponto de inflexão para se compreender a conexão dos valores galo-romanos e francos. Eles ainda mostram que os costumes romanos e bárbaros se misturaram rapidamente, além do franco enriquecimento das elites bárbaras.
A eleição de Clóvis, em 481, como rei dos francos promoveu uma mudança nas bases de poder da monarquia franca. Em um primeiro momento, seu poder estava vinculado a determinados clãs de origem sálica. Posteriormente, Clóvis conseguiu promover certa unidade política e militar entre os francos.
Clóvis I. François-Louis Dejuinne.
A vitória de 486 sobre os grupos liderados por Siágrio, líder romano revolto, ampliou a hegemonia franca no norte da Gália e serviu como passo decisivo na configuração do uso da autoridade régia sobre todos os grupos francos (FRIGHETTO, 2012, p. 161).
Por outro lado, seu bom relacionamento com os grupos aristocráticos galo-romanos deve ser visto como bastante favorável à consolidação de seu poder régio.
A documentação romana sobre essa disputa e a consolidação do poder de Clóvis junto aos heterogêneos grupos francos o colocam como representante do poder imperial na Gália.
Procópio trata da concessão do território da Provença aos francos como uma maneira de apaziguar o poder dos visigodos na Gália, na região da Aquitânia. Ele afirma que os francos não se acreditavam capazes de manter a Gália sob seu poder sem o consentimento do imperador romano. Os francos não aparecem nesse relato como os conquistadores da Gália, e sim como os delegados da autoridade imperial (SILVA, 2008, p. 44).
Siágrio trazido a Clóvis I.
Por outro lado, a documentação produzida por Gregório de Tours sobre a ascensão de Clóvis aponta para dinâmicas mais regionais da conquista da Gália pelos francos. Esse relato de Gregório indica que, no final do século V, havia na Gália setentrional um conflito que opunha dois personagens: o primeiro, um rei bárbaro que era igualmente um alto funcionário romano; o segundo, o filho de um alto funcionário romano que havia se tornado rei. Ele apresenta Siágrio como líder do exercitus Gallicants, que coexistia com um exercitus Francorum de Childerico e de Clóvis.
Esses dois exércitos teriam defendido anteriormente a Gália setentrional contra aqueles que ameaçavam a autoridade romana, como os visigodos, por exemplo. Essa aliança foi estabelecida na metade do século V com o intuito de defender a Gália contra as incursões barbaras, sendo uma resposta ao enfraquecimento do poder imperial no Ocidente.
Cabe ressaltar que, em tal momento, os contingentes de francos do norte da Gália eram federados. Nesse movimento (e com a derrota dos visigodos na Batalha de Vouillé, em 507), Clóvis recebeu a titulação romana de patrício ou "cônsul honorário".
A divisão da Gália em 511.
No final de sua vida e de seu governo, Clóvis tinha conseguido manter sob seu controle quase toda a Gália, com exceção da Burgúndia, Provença e Bretanha. Além disso, ele havia consolidado a dinastia que durou até o século VIII: os merovíngios.
Regnum francorum e os merovíngios
Conhecemos um dos mitos de origem dos merovíngios graças à Crônica, de Fredegário, que narra o seguinte: Meroveu foi concebido quando a esposa de Chlodio foi nadar e encontrou um Quinotauro. Embora não seja explicitamente declarado que esse monstro marinho era o pai do fundador da dinastia merovíngia, trata-se de uma origem mítica e sobrenatural.
Duas versões de um quinotauro.
De acordo com Wood (1994, p. 37), a lenda da origem dos merovíngios, como a registrada por Fredegário, é importante não apenas por sua sugestão de que a família é descendente de um ancestral sobrenatural, mas também por suas implicações para a ascensão da dinastia.
A história do reinado de Clóvis é marcada pela relação com a Igreja franca e seus sucessores merovíngios. Contatos entre o rei e a hierarquia eclesiástica nicena são documentados desde o reinado de seu pai, Childerico I, sendo evidenciados ainda por seu casamento com uma esposa cristã, Clotilde da Borgonha.
Vitral neogótico de Santa Clotilde. Igreja de San Martín de Florac.
Na década de 490, Clóvis teria mostrado interesse no arianismo, comum entre os monarcas godos do período, bem como no niceanismo de Clotilde. Ele teria decidido pelo niceanismo majoritário entre a população autóctone na Gália, possivelmente, na época da guerra com Alarico, monarca ariano e visigodo, e na Batalha de Vouillé, em 507.
O batismo de Clóvis, por São Remígio.
É importante notar que a narrativa sobre o processo de conversão de Clóvis se assemelha bastante àquelas sobre a conversão de Constantino (uma batalha e um sonho profético). Tal aspecto aponta para uma aproximação ideológica em relação ao poder imperial cristão.
Seu batismo teria acontecido provavelmente em 508. Já a convocatória do Concílio de Orleans em 511 teria sido o evento que confirmou seu batismo político-religioso.
A partir de sua morte, o reino foi dividido, primeiramente, entre seus filhos em quatro partes (WOOD, 1994, p. 48-50). Teodorico governou Reims. Já Clodomiro, Childeberto I e Clothario I governaram, respectivamente, Orleans, Paris e Soissons.
Filhos de Clóvis e Clotilde: Clotário I, Quildeberto I, Clodomiro e Teodorico I da Austrásia, que era enteado de Clotilde.
Essa divisão estabeleceu um precedente sucessório utilizado nas reorganizações territoriais da Gália em regna, que resultaram nas bella civilia entre os descendentes do rei, promovendo guerras entre membros da família monárquica merovíngia.
A dominação merovíngia do reino franco não ocorreu de maneira centralizada:
No território da Gália, organizaram-se diferentes regna a partir da sucessão dos filhos e netos de Clóvis.
Houve constantes embates entre a família monárquica.
Uma elite episcopal se associava de forma local aos diferentes reis e às suas disputas.
Uma atividade conciliar mais pulverizada em diferentes núcleos de poder.
A conversão dos monarcas francos à corrente do cristianismo que regia a maioria da população da Gália propiciou uma assimilação entre as elites bárbaras e a aristocracia galo-romana, dando a eles o apoio episcopal. Os bispos galo-merovíngios atuavam em cada reino e deviam obediência a seus respectivos soberanos.
No entanto, o Concílio de Orleans de 511 transformou a instituição eclesiástica da Gália na Igreja do Regnum Francorum, e esse novo papel não foi questionado durante as partilhas ou nas guerras por controle territorial e preponderância régia. Ela continuou a existir como uma entidade indivisível apesar das dificuldades geradas pela compartimentalização que os bispos evocavam durante os concílios (SILVA, 2008, p. 253).
Dioceses que participaram do Concílio de Orleans de 511.
Essas reorganizações foram baseadas nas civitas romanas, que podiam ou não condizer com a organização de dioceses eclesiásticas, e no fisco, que motivou casos de cidades divididas entre dois reis. Por outro lado, esses múltiplos núcleos propiciaram o crescimento, em maior ou menor medida, de grupos eclesiásticos pulverizados no território que circundavam a órbita de cortes reais, além de conferir maior autonomia do episcopado.
A unidade franca de todos os regna sob o mesmo monarca foi possível em dois momentos específicos: com Clotário II (584-629) e Dagoberto I (623-639).
Clotário II.
Dagoberto I.
É importante notar que, nos dois casos, o centro político era localizado na Nêustria.
O reino dos francos foi o mais longevo entre os reinos bárbaros e culminou na formação do Império Carolíngio, que se estendeu por boa parte da porção ocidental do que antes era o território imperial romano, com exceção da Hispânia visigoda (e, posteriormente, mulçumana) e das Ilhas Britânicas.
Saiba mais
Por nossa abordagem se ater às migrações bárbaras até o Império Carolíngio, não podemos explorar todos os reinos bárbaros. Entretanto, faremos um pequeno adendo sobre os bárbaros nas Ilhas Britânicas. Primeiramente, precisamos chamar a atenção para a incipiente romanização da região e o abandono da administração imperial no século V. Tal processo de esvaziamento político resultou na criação, por volta do século VI, de sete reinos que se estabeleceram nas ilhas com a migração e o assentamento de anglos e saxões. Fundaram-se os reinos de Kent, Mercia, Sussex, Essex, Wessex, Northumbria e East Anglia, modelo de domínio que se convencionou chamar de heptarquia.
O reino franco sob domínio carolíngio
Durante os séculos VI e VII, o reino franco vê o advento de outra família nobiliárquica franca, que assume novos cargos de influências na região. Com base patrimonial e articulação com instituições de poder, os pipinidas, posteriormente chamados de carolíngios, foram uma nova força política na Gália.
A ideia da unidade do reino franco que residiu durante a autoridade dos merovíngios serviu de base para os pipinidas. Esse grupo familiar assumiu espaços de poder a partir do poder régio da Austrásia e do cargo de mordomo do palácio (maiores domus) ou de prefeito dele.
Esse cargo foi a base para legitimar o seu poder em ideias herdadas de uma longa tradição, o que se deu pelo menos depois da vitória decisiva de Pepino II (640-714) sobre os seus adversários nêustrios (METZNER, 2011, p. 100-101).
Pepino II.
Um elemento importante em relação ao cargo de mordomo do palácio é que ele se torna hereditário a partir de Pepino I, o Velho (580-640). Por outo lado, verifica-se um enfraquecimento da monarquia merovíngia a partir da distribuição de terras e cerimonialização da função real.
Os pipinidas se destacaram inicialmente por seu patrimônio fundiário, pela amplitude da clientela e dos apoiadores, pela aliança com a Igreja franca e por sua capacidade de atuar contra outras famílias aristocráticas.
Além disso, é importante chamar a atenção para o seu apelo militar e sua capacidade de neutralizar ameaças externas ao reino franco. Esse é o caso da vitória de Carlos Martel frente aos muçulmanos na região dos Pirineus, evento militar que estabeleceu uma fronteira estável frente à Hispânia muçulmana. Além disso, Carlos Martel também integrou ao domínio franco a Burgúndia e a Aquitânia.
Coroação de Pepino, o Breve.
Precisamos notar ainda que, ao depor o último rei merovíngio, Pepino, o Breve, foi eleito em 751 por uma assembleia aristocrática. Isso mostra a base de poder e a assimilação dessa família franca entre as elites da Gália.
Outro aspecto que chama atenção nessa mudança dinástica é a atuação da Igreja franca e do bispado de Roma na legitimação dessa sucessão. Portanto, ao enviar emissários ao Papa Zacarias, Pepino o questionou sobre a natureza do cargo régio e o exercício de poder. Ele recebeu como resposta que era melhor chamar de rei aquele que realmente detém o poder real.
De acordo com Silva (2019), essa resposta do Papa Zacarias era, na prática, uma forma de autorização da deposição de Childerico III. Além disso, a unção régia soma a essa mudança dinástica uma legitimação que faz referência à noção do Antigo Testamento acerca de monarcas escolhidos por Deus (SILVA, 2019, p. 38). Nesse sentido, a ideologia régia dos pipinidas busca envolver a nova dinastia em legalidade e associar um caráter cristão à realeza franca.
O bispo seguinte de Roma continuará a prática de ungir o rei e seus filhos Carlomano e Carlos Magno. Por outro lado, precisamos compreender que essa legitimação não é desinteressada. Por meio da doação pipinida, vê-se o início do Estado Pontifício na Itália, com posteriores ampliações do território.
A sucessão de Pepino, o Breve, e o governo de Carlos Magno trazem novos elementos para o reino franco e possibilitam a construção de uma nova noção de imperium. Carlos Magno (742-814) é o governante do apogeu carolíngio. Inicialmente, ele dividiria o poder com seu irmão, Carlomano, porém, com a morte precoce de Carlomano, seus filhos foram usurpados, ficando o reino franco unificado novamente sob domínio de um mesmo monarca.
Imperador Carlos Magno, por Albrecht Dürer, 1511-13
A base econômica do trono carolíngio era constituída da posse de grandes propriedades fundiárias do patrimônio familiar, confiscos e conquistas. Sua renda também se baseava em tesouro, proventos de justiça, cunhagem de moedas, taxas sobre circulação de mercadorias e pessoas.
Na perspectiva da política externa, observa-se, durante seu governo, a dilatação das fronteiras do reino por meio do que se convencionou chamar Dilatatio Regni, um movimento em três direções: para a Itália, expansão após reação lombarda, com o reino tomado em 774; para o norte, campanhas contra saxões (conversão), frísios e bávaros; e para a Hispânia, a partir de 778, com as campanhas contra os muçulmanos.
Para a Itália
Expansão após reação lombarda, com o reino tomado em 774.
Para o norte
Campanhas contra saxões (conversão), frísios e bávaros.
Para a Hispânia
Campanhas contra muçulmanos a partir de 778.
O Dilatatio Regni é resultado da expansão dos territórios nucleares francos na Nêustria e na Austrásia que estavam contornados por grupos hostis. Trata-se de uma política de alianças carolíngia que conduziu a algumas intervenções, como na Itália, em função dos favores concedidos pelos bispos de Roma, e pautou-se pela busca por novas terras e espólios de guerra para garantir a fidelidade da aristocracia franca.
Cabe ressaltar que esse projeto demandava um exército organizado e equipado. Isso motivou as transformações militares, que passaram a exigir o uso mais intenso dos cavalos como meio de locomoção para áreas distantes. Mesmo que o serviço militar tivesse caráter público, o equipamento mais caro teve reflexos na composição social do exército.
Assumindo grande hegemonia na Gália, Itália e Germânia, o reino franco reintegrou o título imperial no Ocidente. Em 800, Carlos Magno recebeu o título imperial por meio de uma sucessão de acontecimentos e relações de poder.
LOREM_IPSUM
Carlos Magno é coroado como:
Carlos, sereníssimo augusto, coroado por Deus grande e pacífico imperador, governante do Império Romano, igualmente pela misericórdia de Deus, rei dos francos e lombardos” .
(PARISSE, 2006, p. 608)Que tal saber mais sobre os desdobramentos do governo de Carlos Magno?
Este conteúdo tinha como objeto central apresentar um panorama conceitual e político sobre o fim da Antiguidade e o início da Idade Média pela perspectiva dos reinos bárbaros. Nesse sentido, apresentamos conceito de “bárbaro”, entendendo-o como uma construção de alteridade do mundo romano posteriormente adotada pela historiografia. Além disso, debatemos algumas características dos reinos bárbaros, como a migração, a formação, a conversão, a ideologia e a confecção das leis bárbaras.
Em um segundo momento, tratamos do contexto e dos reinos bárbaros estabelecidos na Hispânia e na Itália, com foco no reino dos suevos e na população visigoda, assim como nos reinos dos ostrogodos e dos lombardos. Falamos também sobre o impacto da renovação justiniana como projeto para o território mediterrânico, destacando seu impacto nos reinos bárbaros.
Por fim, conhecemos os francos, abordando suas características como confederação atuante no Limes do Reno. Depois, passamos pela ascensão de Clóvis e pelo domínio merovíngio na Gália franca, culminando com a mudança trazida pelos carolíngios, aspecto que impactou múltiplos territórios do Ocidente na Primeira Idade Média.
Neste podcast, os professores Rodrigo Rainha e Nathália Serenado conversam sobre os principais elementos dos reinos bárbaros.